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Espiritismo é religião? O que é o Espiritismo?

por Bruno Quintanilha


O Espiritismo é uma religião? Antes de responder a esta pergunta é necessário definirmos o que entendemos por religião.


Sempre que utilizamos alguma palavra é muito importante que façamos uma definição clara e objetiva do significado que damos a ela, como a entendemos, porque muitos termos são polissêmicos, ou seja, possuem mais de um significado dependendo da situação em que são utilizados ou mesmo da pessoa que os utiliza.


Por exemplo, quando menciono o termo manga, posso estar me referindo à fruta, mas também posso estar me referindo a uma parte específica de uma roupa. Quando menciono o termo vela, posso estar me referindo à vela de um barco, a uma modalidade esportiva ou ao objeto feito de cera composto por um pavio que acendo com uma chama e serve para iluminar ambientes escuros. Inclusive, muitos dos nossos problemas de relacionamento – profissionais, com amigos, com família ou românticos – surgem a partir de mal-entendidos que se originam em falhas de comunicação, onde não expressamos com exatidão o que sentimos ou pensamos e, dessa forma, as pessoas têm maior dificuldade em interpretar e compreender nossas ideias.


Sendo assim, quanto mais pudermos ser objetivos, claros e sintéticos em nossos discursos ou falas, melhor a comunicação e mais chances de expressarmos com exatidão o que sentimos e pensamos e não sermos mal interpretados ou mal-entendidos.


Uma dica de leitura para nos ajudar a lidar melhor com esse processo de comunicação, troca, diálogo, expressão de ideias e emoções, é a obra Comunicação Não Violenta, de Marshall Rosenberg (2006) [1].


O fato é que considero o termo religião polissêmico, ou seja, como possuindo mais de um significado possível.


Uma primeira possibilidade de significado é considerar a religião como uma instituição criada por seres humanos, datada historicamente e localizada geograficamente, que pode vir a ter um conjunto de regras, sacerdócio, hierarquia, lógica geralmente verticalizada, dogmas (princípios de fé não passíveis de questionamento ou crítica) e, frequentemente, projetos de hegemonia ou de poder material de caráter político ou até mesmo econômico. A impressão que tenho é que no imaginário popular, quando menciono o termo “religião”, é isso que enumeramos aqui que vem à mente de grande parte das pessoas. Sob esse aspecto, o Espiritismo não é, em sua essência e proposta original, de forma nenhuma, religião.


Uma segunda possibilidade de significado para o termo religião é considerá-la enquanto um sentimento, uma forma de conexão interior e particular do ser humano com uma força maior, com o sagrado, com Deus, independentemente de instituições, regras fechadas ou lugares. Léon Denis, por exemplo, segue nessa linha de pensamento e afirma, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, capítulo 1, que “a Religião é o esforço da Humanidade para se comunicar com a Essência eterna e divina.". Já na obra Depois da Morte, também no capítulo 1, o mesmo autor declara que "A verdadeira religião é um sentimento; é no coração humano, e não nas formas ou manifestações exteriores, que está o melhor templo do Eterno.”. Ainda no capítulo 1 da mesma obra, Denis recorre à etimologia do termo religião, que significaria uma espécie de religação, de conexão entre os seres humanos e a divindade. Sob esse aspecto, em minha opinião, o Espiritismo poderia ser considerado uma religião.


Entretanto, o fato é que quando falamos em religião, as pessoas misturam ambas essas acepções e cada um tem uma percepção muito particular do termo e de sua significação segundo suas próprias experiências de vida, cultura e subjetividades.


Sendo assim, me parece que por essa polissemia e confusão em torno do termo é que Kardec aparenta desviar-se constantemente de afirmar o Espiritismo enquanto religião, pois em grande parte das vezes, quando esse termo é mencionado há a associação com templos, regras, hierarquias, verticalidade, dogmas, poder material, etc, e não apenas com um sentimento livre a autônomo de conectividade com algo superior.


Particularmente, enxergo o Espiritismo enquanto um campo do conhecimento e uma doutrina (aberta, progressiva, dinâmica), ou seja, um conjunto sistematizado de ideias e de valores. O Espiritismo não surge da fé religiosa – muito embora não trabalhe contra ela e até a estimule a seu modo.


O Espiritismo surge da investigação de fenômenos (mesas girantes, ruídos, comunicação dos mortos) que sempre ocorreram na história da humanidade mas que, no século XIX, estavam acontecendo sistematicamente[2] em alguns lugares e, até então, ninguém conseguia explicar de forma satisfatória.


Essa investigação da comunicação dos mortos e sua intervenção no mundo material utilizou elementos de ciência, como um método, a construção de teorias, hipóteses, de verificação e, ao mesmo tempo, a investigação desses fenômenos também utilizou-se de pensamento filosófico, na medida em que travando contato com Espíritos através de médiuns, efetuaram-se uma série de questões que o ser humano sempre se fez (porque estamos aqui, quem somos, de onde viemos, para onde vamos, etc).


A partir dessa pesquisa em que se utilizaram elementos de ciência e filosofia, construiu-se todo um sistema de ideias e valores, com alto poder explicativo, com uma ética, um conjunto de valores potente, e com um forte componente consolador, de esperança, mas também de ação social na busca da construção de um mundo mais justo e fraterno. Por fim, o Espiritismo enquanto doutrina estimula o despertar de fé e de uma religiosidade independente de instituições e de pessoas, uma religiosidade autônoma, aberta, humanista e humanizante, de uma conexão direta entre Criador e criatura.


Allan Kardec definia o Espiritismo, no preâmbulo da obra “O que é o Espiritismo”, da seguinte forma: “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.”


Num esforço imperfeito de síntese para a atualidade, eu me atrevo a classificar o Espiritismo na seguinte frase: doutrina, sistema de ideias com elementos de ciência e filosofia, com uma dimensão ética e com potencial para despertar e alimentar fé e religiosidade autônomas e abertas.


Além disso, também gosto de ver o Espiritismo enquanto lente, enquanto uma espécie de óculos que nos ajuda a olhar para o mundo e interpretá-lo um pouquinho mais a fundo, a partir de um paradigma espiritualista, ou seja, de uma lógica que leva em consideração que a vida não termina com a morte do corpo físico.


Os conceitos centrais do Espiritismo (mediunidade, Espírito, Deus, evolução e reencarnação)[3] e a sua ética (pautada em valores como altruísmo, empatia, respeito e não violência) nos conferem instrumentos a mais de explicação e de análise acerca de vários fenômenos e processos, nos permitem tentar avançar um pouquinho mais na explicação e compreensão de uma série de coisas que sem esses conceitos e valores permanecem inexplicados.


Além disso, é importante observar que o Espiritismo não inventa nenhuma ideia nova, mas apenas tenta reelaborar ideias muito antigas da humanidade sob uma perspectiva moderna (falamos aqui do século XIX). O próprio Kardec tinha ciência disso quando afirma no item 104 do livro O que é o Espiritismo que “O Espiritismo ensina poucas verdades absolutamente novas, ou mesmo nenhuma, (...)”.


E para agregarmos mais materiais sobre nossa reflexão acerca do Espiritismo, avalio como importante um trecho do livro Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec, editado pela FEB. No capítulo referente a Viagem Espírita em 1861, em um Discurso de Allan Kardec durante o banquete que lhe foi oferecido em Lyon, ele afirma o seguinte a respeito do Espiritismo:


é uma Doutrina puramente moral, que absolutamente não se ocupa dos dogmas e deixa a cada um inteira liberdade de suas crenças, pois não impõe nenhuma. E a prova disto é que tem aderentes em todas, entre os mais fervorosos católicos, como entre os protestantes, os judeus e os muçulmanos. O Espiritismo repousa sobre a possibilidade de comunicação com o mundo invisível, isto é, com as almas. Ora, como os judeus, os protestantes e os muçulmanos têm almas como nós, o que significa que podem comunicar-se tanto com eles quanto conosco, e que, conseguintemente, eles podem ser espíritas como nós. Não é uma seita política, como não se trata de uma seita religiosa; é a constatação de um fato que não pertence mais a um partido do que a eletricidade e as estradas de ferro; é, insisto, uma doutrina moral, e a moral está em todas as religiões, em todos os partidos. (KARDEC, 2005, p. 194)

Neste trecho, Kardec aponta o Espiritismo enquanto um conjunto de conhecimentos que poderia ser apropriado por qualquer pessoa, independentemente de sua crença ou religião. Tanto que ele revela que em seu tempo haviam pessoas de outras religiões que aderiam ao Espiritismo sem necessariamente abandonar suas crenças anteriores. Isso faz muito sentido, por exemplo, quando vemos a mediunidade, que é uma faculdade do ser humano. Há indivíduos médiuns em todas ou quase todas as religiões, culturas e sociedades. E, nesse sentido, o Espiritismo pode ser uma ferramenta[4] para auxiliar a entender essa faculdade e a lidar com ela de forma saudável e equilibrada, por exemplo.


 Dessa forma, vejo o Espiritismo como uma contribuição para o pensamento humano, para a religiosidade das pessoas e para a sociedade. Não o enxergo como um rival de outras denominações, crenças, filosofias, das ciências ou das religiões. Não o enxergo como uma ideia que vai homogeneizar, suplantar, hegemonizar. Vejo ele como um conjunto potente de ideias e valores que tem muito a oferecer e trocar. Vejo o Espiritismo como um estímulo – mas não o único – a uma espiritualidade humanizante, altruísta, livre, consciente, espiritualidade essa que o Pastor Henrique Vieira, no livro O amor como revolução, define da seguinte forma:


Espiritualidade é abertura, fundamentalismo é fechamento. Espiritualidade se move nas perguntas, fundamentalismo, em certezas irretocáveis. Espiritualidade é experiência e contemplação, fundamentalismo é doutrina. Espiritualidade se move no amor e na liberdade, fundamentalismo, na culpa e no medo. Espiritualidade transita nas diferenças e percebe a diversidade como expressão sagrada, fundamentalismo vê a diversidade como maldição. Portanto, a experiência religiosa é saudável quando alimenta a espiritualidade sem sufocá-la. (VIEIRA, 2019, p. 65)

Em um outro trecho, em outra parte, ele continua:


Sendo assim, a espiritualidade não é certeza objetiva, porque transita na dúvida. Espiritualidade não é institucionalizar o Sagrado, fechando-o em dogmas e verdades inabaláveis, mas é o exercício de tatear o Sagrado tal qual um bebê passando os dedos no rosto da mãe. Espiritualidade é mais abertura do que fechamento; mais perguntas do que respostas; mais consolo e caminhada do que benção ou maldição. (VIEIRA, 2019, p. 51)

Por fim, em outro trecho, Henrique Vieira arremata sua ideia de Deus e espiritualidade dizendo assim:


Gosto de pensar em Deus assim, como o sorrido da Maria. Esse sorriso que é para mim, mas não só. Gosto de pensar no amor de Deus como algo parecido com o que sinto por ela. Deus não é uma verdade fechada, petrificada em um texto e que precisa ser defendido dos hereges. É como amar Maria e saber que não sou o dono dela. Amar a Deus é saber que não o controlo, que ele sorri para outros povos, culturas e religiões. (VIEIRA, 2019, p. 50)

Oxalá possamos nos apropriar do Espiritismo de forma que possamos vir a alimentar essa espiritualidade aberta, agregadora, libertadora, acolhedora, aconchegante, humanista e humanizante, empática, horizontal, democrática, que valoriza a diversidade, que nos conecte com algo maior, nos alimente enquanto fé saudável, sadia, altruísta e generosa, que nos faça esperançar e despertar emoções e sentimentos saudáveis, que nos conecte com esse poder superior, essa força da vida que cada povo chama por um nome diferente e que nós aqui no Ocidente denominados de Deus, mas que no fundo é o supremo amor e fonte da vida.




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[1] Yvonne Pereira, na obra Pelos Caminhos da Mediunidade Serena, possui observação que julgamos relevante acerca da necessidade de não lermos apenas livros espíritas, mas sim tomarmos contato com literaturas diversas para que, dessa forma, possamos ampliar nossa capacidade de reflexão e nossa visão de mundo, sociedade e mesmo do próprio Espiritismo: “Há ocasiões em que meus guias me recomendam ler obras profanas de todos os tipos, desde que esclareçam e edifiquem a mente. Atermo-nos somente à literatura espírita será exclusivismo que limitará a nossa ação em favor da própria doutrina que defendemos.” (PEREIRA, 2013, p. 91) [2] O escritor escocês Arthur Conan Doyle (2013, p. 15), na obra A história do espiritualismo, escrevendo a respeito da diferença entre os fenômenos de comunicação com os mortos no passado distante e no seu tempo (século XIX) afirma: “A única diferença entre os fatos antigos e o moderno movimento é que aqueles podem ser descritos como episódios de viajantes perdidos de alguma esfera distante, enquanto este último apresenta as características de uma invasão organizada.” [3] Me recordo que a primeira vez que ouvi a menção a esses 5 conceitos como sendo os pilares do Espiritismo foi em uma palestra do Vinicius Lara. [4] Não temos a pretensão de colocar o Espiritismo como a única maneira de aprender a lidar com a mediunidade, pois enquanto doutrina, o Espiritismo é extremamente jovem do ponto de vista histórico e, antes de seu surgimento, muitos médiuns, ao longo da história, utilizaram suas faculdades sem necessariamente conhecê-lo. Além do mais, há outros grupos que lidam com a mediunidade e não são espíritas. Não considero acertado encarar o Espiritismo como único caminho para a educação da mediunidade.



Referências bibliográficas

DENIS, Leon. Depois da Morte: exposição da doutrina dos espíritos. 1. ed especial. Rio de Janeiro:

FEB, 2008.

DENIS, Leon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 32. ed. Brasília: FEB, 2013.

DOYLE, Arthur Conan. A História do Espiritualismo: de Swendenborg ao início do século XX

[tradução de José Carlos da Silva Silveira]. 1. ed. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo [tradução da Redação de Reformador em 1884]. 56. ed.

Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec [tradução de Evandro

Noleto Bezerra]. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

PEREIRA, Yvonne do Amaral. Pelos Caminhos da Mediunidade Serena. (Obra de entrevistas e

textos organização por Pedro Camilo). 3. ed. Bragança Paulista: Instituto Lachatre, 2013.

ROSENBERG, Marshall. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos

pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.

VIEIRA, Henrique. O Amor como Revolução. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.

 
 

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