top of page

O problema social também é moral

por Saulo Monteiro



Estamos estudando o livro Socialismo e Espiritismo sem a intenção de dar respostas finais para isto ou aquilo. Não sei as soluções para o fim da fome ou da desigualdade abissal que o mundo vive. Mas estamos conectados por um desejo comum, que Léon Denis aponta muito bem nesse parágrafo. Acompanhe seu raciocínio.


Nosso mundo, dissemos anteriormente, é levado por uma possante corrente em direção à era de transformação social e o que fará realmente a diferença é a vontade cessar, ou pelo menos diminuir o sofrimento humano; é o desejo intenso de acabar com as iniquidades sociais que inspira o Socialismo sob suas variadas formas.


Ora, todos nós queremos minimizar e até extinguir o sofrimento e isso é possível. É mais do possível, é a missão dos seres sobre a Terra: crescer e promover irmãs e irmãos também. Reconhecer que o outro precisa de ajuda é um ponto forte do espírita, tanto que mundo à fora, centros espíritas são marcados também por atividades de promoção da dignidade, da saúde, da educação humanas. O Socialismo deseja o mesmo que nós: a transformação social. O pão que distribuímos aos que sofrem, precisa virar política pública porque só assim todos serão alcançados. Nossa ação social comunitária salva vidas, mas um projeto de cidade, de país, de mundo melhores, salvam a todos. É por isso que nossa defesa começa pela perspectiva da caridade e termina com a aliança à justiça social.

              

Mas como o Socialismo deseja fazer isso? Denis entende que falta a ele algo que o Espiritualismo pode oferecer: Por enquanto, diz o autor, os socialistas estão divididos em escolas rivais. Eles trabalham de diversas formas no intuito de reunir os elementos necessários para fundar um novo edifício social. Porém falta-lhes o essencial, o cimento que ligará esses elementos, ou seja a fé elevada e o espírito de sacrifício que ela inspira. Falta-lhes o ideal poderoso que aquece, fecunda e vivifica. Para construir a cidade futura, para fixar a lei social definitiva é necessário, antes de tudo, conhecer a lei universal do progresso e da justiça e tomá-la por guia. Pois, se não adaptarmos nossas obras à lei eterna das coisas, faremos somente uma obra efêmera erguida sobre areia e que ruirá.


E aqui, minha irmã e meu amigo, entra esse casamento que Léon Denis celebra: transformação social com reforma do caráter. Sem pensar nessa junção, vemos dois grupos extremos hoje: de um lado os que procuramos reformar nosso jeito de ser sem preocupação com os demais, vinculados ao religiosismo centrado em sua própria pessoa, fruto ainda da ideia antiga de salvação em que fomos criados por tantos séculos. Quando pensamos assim queremos um lugar melhor na outra vida e pronto. De outro lado estão aqueles que procuramos exclusivamente olhar para a reforma da sociedade, esquecendo de que o coletivo é um conjunto de indivíduos e que se pessoas são más, a lei é má e portanto a vida social também. É que Denis nos explica no texto a seguir:


Para frear as paixões violentas, as furiosas cobiças e a todos os baixos instintos que emperram o progresso social, não basta apelar somente para a inteligência e para a razão, é necessário principalmente falar ao coração do homem, ensiná-lo a conhecer a real finalidade da vida, seus resultados, suas consequências, responsabilidades e sanções. Enquanto o homem ignorar o alcance de seus atos e a repercussão disso em seu destino, não haverá melhoria durável no destino da humanidade. O problema social é acima de tudo um problema moral, já o dissemos. O homem será infeliz enquanto for mau.


Como vimos dizendo, as duas transformações são concomitantes: enquanto lutamos por leis e organizações sociais melhores, não podemos perder de vista o quanto ainda há de progresso a realizar em nós mesmos e que exercícios podem ser executados para que sejamos, sem violência conosco, claro, melhores amanhã do que estamos hoje. Quando essa conciliação for encontrada, o ser terá a união dos elementos presentes com os do futuro. Como diria o poeta, quem sabe faz a hora não espera acontecer! Se refletirmos, metade do exercício é saber, é o autoconhecimento, é a reflexão profunda entre o que estamos e o que podemos ser. A outra metade é, uma vez sabendo, fazer acontecer.

 
 

Comments


bottom of page