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Robert Hare - Um rápido olhar sobre a conversão de um sábio americano

por Elton Rodrigues


Houve, após o afamado episódio em Hydesville[1], um alvoroço partindo da população para que explicações plausíveis fossem aventadas, e que pudessem esclarecer sobre a origem dos fenômenos supranormais, no entendimento daquelas pessoas, que ocorriam na casa da família Fox.


A família Fox sofreu inúmeras humilhações, consequência do fanatismo protestante dos moradores daquela região. Três comissões foram formadas, cada uma mais rígida que a anterior, para desmascararem aquela família que afirmava comunicar-se com espíritos através de singulares manifestações. Logo que a terceira comissão deu parecer positivo à realidade dos fenômenos, parecer semelhante às duas comissões que a precederam, “a multidão, exasperada, convencida da traição dos comissários e de sua conivência com os impostores, declara que se o relatório fosse favorável, ela lincharia as médiuns e seus advogados”.[2]


Quando nos debruçamos sobre a história do espiritismo, vemos que os fenômenos foram seriamente estudados desde o seu princípio. Não eram os vizinhos que avaliavam a realidade do que estava acontecendo, e sim, comissões formadas por inúmeros incrédulos meticulosos que, “após investigações minuciosas, [foram] obrigados a reconhecer a autenticidade absoluta do fenômeno”.[3]


Mesmo ocorrendo perseguições, o número de simpatizantes do espiritualismo moderno, movimento ainda embrionário, mas que só se tornava mais forte a cada parecer favorável das comissões organizadas com objetivo de identificar fraudes, só crescia. Em 1850 já existiam milhares de adeptos nos Estados Unidos. E nesta época, a prática em torno dos fenômenos adquirira outro aspecto. As pancadas, antes ouvidas nas paredes e soalhos, eram ouvidas agora nas mesas.[4]


“Terminadas as investigações públicas em Rochester, com a afirmação da veracidade de fenômenos diversos, entre eles o da mesa movente (table-moving), testemunhados por respeitáveis personalidades, (...) cresceu a agitação em torno deles [dos fenômenos], e a imprensa estadunidense divulgou-os de uma à outra extremidade da União, tanto que antes de findar o ano de 1850 o modern spiritualism já havia invadido alguns Estados da União, e Nova Iorque contava numerosos centros.”[5]


Foi somente após mudanças nas características das reuniões e na forma de obtenção das mensagens dos espíritos, que as pesquisas se tornaram objeto de interesse de homens de autoridade moral e intelectual reconhecidas. Nas palavras de Eugène Nus, os anos de 1848 e 1849 foram “a fase de incubação do modern spiritualism, o futuro espiritismo na Europa”[6], enquanto os anos 1850 e 1851 são vistos como um período de grande propagação da “mania de fazer girar as mesas”[7].


Em janeiro de 1851, o juiz John Worth Edmonds, um dos homens mais respeitados dos Estados Unidos, materialista que sempre rira da crença nos espíritos, começou suas investigações acerca da fenomenologia espiritualista. Sua conversão, diz Delanne, “causou grande alvoroço na União, e atraiu para si muitas injúrias das páginas evangélicas e dos jornais profanos”.[8] Todavia, esse alvoroço se tornou uma grande propaganda, aumentando ainda mais o interesse pelas manifestações inteligentes dos espíritos. Ademais, o juiz Edmonds, com objetivo de responder às críticas de seus compatriotas, escrevera um magnífico livro intitulado Spirit Manifestation.


O ano de 1852 foi muito rico para a divulgação dos fenômenos e das mensagens efetuadas pelos espíritos. Além, é claro, como já foi dito, de uma aproximação cada vez maior de professores e cientistas universitários, com objetivos de dar testemunhos da autenticidade dos movimentos das mesas. Ademais, ainda em maio 1852, surgiu o primeiro periódico que tratava do espiritualismo moderno, o Spiritual Telegraph. Enquanto isso, na França, segundo Mirville[9], o jornal L’Univers, em um artigo publicado em julho de 1852, sob o título “Les spiritualistes d’Amérique”, foi o primeiro a dar maior destaque à questão.


Mesmo com a negação das academias oficiais para com a realidade dos fenômenos supracitados, pesquisas e debates acalorados em torno das manifestações marcaram os anos de 1852 e 1853. Em julho de 1853, o jornal inglês Athenaeum[10] publicava um trabalho escrito por Faraday a respeito das mesas girantes.

Não vamos reproduzir as experiências realizadas por Faraday[11], pois não é objetivo deste presente texto. Além disso, os fatos quase que imediatamente vieram demonstrar a fragilidade e precariedade de suas conclusões, que nem tempo tiveram para germinar, visto que outros experimentos foram realizados demonstrando a realidade da influência de inteligências extracorpóreas sobre a matéria.


As hipóteses simplistas de alguns sábios, como as de Faraday, e de outros personagens[12] que não iremos adentrar em suas características e conclusões, não tiveram mais onde se apoiarem depois que o grande pesquisador Robert Hare, professor, durante trinta anos, na célebre Universidade de Pensilvânia, famoso inventor, com mais de 150 artigos escritos, publicou em 1855 os resultados de suas longas investigações na obra “Experimental investigation of the spirit manifestations, demonstrating the existence of spirits and their communion with mortals”.[13]


Robert Hare (1781-1858), químico americano mais importante de sua geração, chocou seus colegas da Faculdade de Medicina da Pensilvânia, no dia 10 de maio de 1847, quando, renunciando o cargo de professor que ocupava desde 1818, embarcou em outros projetos.[14]


Hare foi um dos responsáveis, ainda na década de 1840, pela fundação da American Association for the Advancement of Science. Ele também continuou com suas investigações científicas sobre a origem das tempestades.[15] Ele também escreveu e publicou duas novelas: Standish the puritan and overing e The heir of Wycherly. Finalmente, na década de 1850, Hare se converte ao espiritualismo moderno e se torna um grande defensor de uma aproximação entre ciência e religião.


Engana-se quem pensar que Robert Hare se aproxima do espiritualismo com intenção de corroborar as ideias contidas nessa nova ciência. Ele, se sentiu chamado, diz o próprio Hare, “como por um dever para com seus semelhantes, a utilizar o que possuía de influência para tentar deter a onda de demência popular que se eleva, a despeito da ciência e da razão, se pronunciava tão obstinadamente em favor dessa grosseira ilusão chamada espiritualismo”.[16]


Foi em 1853 que o professor teve sua atenção voltada às mesas girantes. Inicialmente, a teoria de Faraday[17] lhe pareceu convincente, mas logo reconheceu, repetindo suas experiências, que as conclusões do sábio eram insuficientes para explicar todos os fatos. Por consequência, esforçando-se para complementar as conclusões de Faraday, criou novos aparelhos.


“Ele pegou bilhas de bilhar em cobre, colocou-as sobre uma placa de zinco, fez pousar as mãos do médium sobre as bilhas, e, para seu profundo espanto, a mesa se mexeu. Então, fez mergulhar as mãos do médium na água, de maneira a não ter comunicação alguma com a prancha sobre a qual estava colocado o vaso que continha o líquido, e, para a sua grande estupefação, uma força de dezoito libras foi exercida sobre a prancha. Não convencido ainda, tentou um outro processo: a longa extremidade de uma alavanca foi colocada sobre uma balança em espiral, com um indicador móvel e o peso marcado. A mão do médium estava colocada sobre a pontinha da alavanca, de maneira que foi impossível para ele fazer pressão na direção do braço, e que, ao contrário, sua pressão, se ele exercia uma, não pôde produzir senão o efeito oposto, isto é, levantar a longa extremidade. Qual não foi o assombro do célebre professor, quando constatou que o peso estava aumentando de várias libras na balança!”[18]


Robert Hare ficou muito intrigado com os seus resultados, e isso o motivou a ir mais fundo em suas investigações. Convencido que estava diante de uma nova força física, quis comprovar se era uma inteligência que dirigia as manifestações. Para isso, adaptou a uma mesa um disco que continha letras do alfabeto de tal forma que era impossível o médium enxergá-las. Uma agulha móvel, presa no centro do disco, indicava sucessivamente as letras das palavras ditadas. Todos esses detalhes estão no maravilhoso livro Experimental investigation of the spirit manifestation. Esse livro causou um grande sucesso e cujo efeito foi mais considerável do que aquele obtido pelo juiz Edmonds. Pois, agora, os resultados partiam de um dos membros da ciência oficial.


O sábio americano teve um importante papel na comprovação do movimento que surgiu em 1848. Os cientistas, por outro lado, tiveram uma visão completamente diferente. Antes de conversão, Robert Hare era considerado um dos grandes químicos americanos, porém, depois eles o rejeitaram e desprezaram. A.A. Gould, um naturalista conhecido internacionalmente, sugeriu que os seus colegas estavam testemunhando uma “ruptura de uma mente poderosa”. Benjamim Silliman, amigo íntimo de Hare e fundador da primeira revista científica dos Estados Unidos, pediu para Hare voltar à ortodoxia cristã. Em linguagem menos diplomática, a faculdade do Colégio Harvard denunciou-o por sua "aderência insana" a uma "farsa gigantesca".[19] No seu obituário, o New York Times comentou acerca de suas contribuições para a ciência, mas lamentou sua "ilusão" espiritualista. Os historiadores seguiram o exemplo infeliz ao descrever a conversão de Hare para o Espiritismo, de alguma forma sendo divorciado de seu trabalho científico anterior.[20]


Um exame minucioso da vida de Robert Hare, no entanto, revela que sua atração pelo espiritualismo moderno não foi uma aberração tardia. Em vez disso, as informações por detrás dos fenômenos eram consistentes com as crenças e ações que ele realizou ao longo de toda a sua carreira como intelectual público nos campos da ciência, da política e da cultura. De fato, o livro Experimental investigation of the spirit manifestation foi o culminar de seus esforços ao longo de sua vida para promover a restauração de uma ordem social construída sobre os princípios do republicanismo, como ele os entendeu.[21] Assim, o espiritualismo moderno permitiu que Hare harmonizasse suas crenças políticas, científicas, sociais e religiosas.

 




[1] Arthur Conan Doyle, A história do espiritualismo, O episódio de Hydesville, 1ª Edição, FEB

[2] Gabriel Delanne, O fenômeno espírita, Os tempos modernos, Na América, p. 35, § 2º, 1ª Edição, CELD

[3] Gabriel Delanne, Op. Cit., p.35, § 3º

[4] Gabriel Delanne, Op.Cit., p. 36, § 2º

[5] Eugène Nus, Choses de l’autre monde, p. 191, 2ª Edição, citado por Zêus Wantuil, As mesas girantes e o espiritismo, p. 7, § 2º, 3ª Edição, FEB

[6] Eugène Nus, citado por Zêus Wantuil, Op. Cit., p. 7, § 1º

[7] Gabriel Delanne, O fenômeno espírita, Os tempos modernos, Na América, p. 36, § 3º, 1ª Edição, CELD

[8] Gabriel Delanne, Op.Cit., p. 39, § 2º

[9] J. Eudes de Mirville, Des esprits et de leurs manifestation fluidiques, p.406, 10º Edição

[10] Pesquisas experimentais sobre as mesas girantes, revista Cosmos, tomo III, p.96-101

[11] Para saber mais sobre os experimentos realizados por Faraday: Louis Figuier, Historie du Merveilleux, tomo IV, p.313; J. Bourbaki. O experimento crucial de Michael Faraday para o fenômeno das mesas girantes. O Fóton: Revista da Associação Física e Espiritismo da cidade do Rio de Janeiro, vol. 8, dezembro, p. 5-9, 2017; Michael Faraday, The table turning delusion; Eugène Nus, Choses de l’autre monde, p. 150, 2ª Edição.

[12] Babinet, Chevreul, Carpenter, etc. Ler Zêus Wantuil, As mesas girantes e o espiritismo.

[13] Zêus Wantuil, As mesas girantes e o espiritismo, p. 226, § 1º, 3ª Edição, FEB.

[14] Timothy Kneeland, Robert Hare: Politics, science and spiritualism in the early republic, Pennsylvania Magazine of History and Biography, Vol. CXXXII, nº 3, p.245, § 1º, Julho de 2008.

[15] Sally Gregory Kohlstedt, The Formation of the American Scientific Community: The American Association for the Advancement of Science, 1848–60 (Urbana, IL, 1976), 108, 122, 183; Robert Hare, “On the Whirlwind Theory of Storms,” Proceedings of the American Association for the Advancement of Science, Fourth Meeting , 1850 (Washington, DC, 1851), 231–42. Hare claimed that electricity caused tornadoes.

[16] Gabriel Delanne, O fenômeno espírita, Os tempos modernos, Na América, p. 40, § 3º, 1ª Edição, CELD

[17] Ler Gabriel Delanne, Op.Cit., 2ª parte – Os Fatos, Capítulo I, p. 71-102

[18] Gabriel Delanne, Op.Cit., Os tempos modernos, p. 41, § 2º

[19] Formation of the American Scientific Community, 152; Benjamin Silliman to Robert Hare, May 17, 1856, and Robert Hare to Benjamin Silliman, June 8, 1856, Robert Hare Papers, 1764–1859, American Philosophical Society, Philadelphia; Burton Gates Brown Jr., “Spiritualism in Nineteenth-Century America” (PhD diss., Boston University, 1973), 277; “Death of Dr. Robert Hare,” New York Times,May 18, 1858.

[20] Smith, Robert Hare; Wyndahm Miles, “Robert Hare,” in Dictionary of Scientific Biography, ed. Charles Coulston Gillispie, vol. 6 (New York, 1972).

[21] Craig James Hazen, The Village Enlightenment in America: Popular Religion and Science in the Nineteenth Century (Urbana, IL, 2000), 68–106.

 
 
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